Ministros do STF entram em choque em sessão inédita às vésperas das eleições
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) protagonizaram nesta terça-feira (15) uma sessão inédita, marcada por bate-bocas e trocas de acusações, ao discutirem a situação do ministro Alexandre de Moraes, acusado de possíveis vínculos com o banqueiro preso Daniel Vorcaro.
O caso desencadeou uma crise que ofuscou a campanha para as eleições presidenciais, nas quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No centro da controvérsia está Vorcaro, ex-dono do Banco Master, cujas conexões duvidosas com o poder envolveram ministros, parlamentares e até mesmo Flávio Bolsonaro.
O chamado “Caso Master”, referência ao banco liquidado após um grande esquema de fraude contra clientes, deflagrou uma guerra interna que muitos interpretam como uma disputa entre magistrados para favorecer um dos dois campos nas eleições.
O ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, solicitou que o tribunal analisasse um relatório policial sobre mensagens enviadas por Vorcaro a um número atribuído a Moraes, nas quais o banqueiro pedia ajuda na investigação contra ele.
Moraes, alvo de críticas da direita desde que conduziu o julgamento que condenou Bolsonaro por tentativa de golpe em 2025, tornou-se o principal foco das discussões.
Embora a sessão, transmitida ao vivo pela TV e pelo YouTube, tivesse como objetivo avaliar a abertura de uma investigação contra Moraes, os ministros dedicaram boa parte do debate a uma troca de acusações.
Sentados lado a lado, Moraes e Mendonça protagonizaram um dos momentos mais tensos da sessão, no qual Moraes acusou o colega de estar “a serviço” da direita e de pressionar a polícia a constranger investigados para que prestassem depoimentos contra ele. “Mentira!”, respondeu Mendonça.
A troca de acusações surpreendeu os presentes, mais acostumados à solenidade das sessões do Supremo, constatou um jornalista da AFP na sala.
A sessão, que se estendeu ao longo do dia, terminou com um pedido de vista do ministro Flávio Dino, ex-ministro da Justiça do governo Lula, o que pode adiar uma definição até dezembro.
“Nós estamos em termos que degradam a imagem do tribunal (...) Eu tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem. Nós não temos condições de deliberar”, declarou Dino.
Antes da sessão, Moraes havia acusado Mendonça, por escrito, de produzir provas com o “auxílio de órgão externo, provavelmente órgão estrangeiro”, em uma tentativa de interferir no processo eleitoral.
O ministro também mencionou as sanções impostas pelos Estados Unidos a ele e a outros integrantes da corte em 2025, em razão do julgamento de Jair Bolsonaro.
Única mulher do STF, a ministra Cármen Lúcia manifestou “profunda consternação e tristeza” pelo tom do debate e pediu desculpas à população.
“Houve uma espetacularização desses casos, desta sessão mesmo. Que não faz mal apenas ao Supremo nem ao Poder Judiciário, faz mal ao país. O país espera de nós uma tranquilidade que eu acho que nós não conseguimos dar”, declarou.
Nas proximidades do tribunal, centenas de manifestantes se reuniram pedindo “Fora Moraes”. A segurança na sede do Supremo foi reforçada com drones, policiais armados, cães farejadores e um helicóptero.
A crise monopoliza a campanha eleitoral, a poucas semanas do primeiro turno, em 4 de outubro.
Lula pediu transparência para que os culpados sejam responsabilizados. “Ninguém do STF pode ficar sob suspeita, é preciso apurar, e quem cometeu erro que pague”, declarou à TV Record, após a audiência.
Flávio Bolsonaro criticou Moraes, que associou a Lula. "O atual presidente dividiu seu poder com Alexandre de Moraes. E, no fim, o Brasil ficou sem presidente nenhum", disse o senador em um vídeo.
Flávio ultrapassou Lula pela primeira vez na pesquisa de intenções de voto da empresa Quaest divulgada ontem. Embora a diferença entre os dois siga dentro da margem de erro, Flávio apareceu com 42%, contra 40% para Lula, em um eventual segundo turno.
Na última sexta-feira, no entanto, revelou-se que Flávio é investigado por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro no financiamento do filme "Dark Horse", uma cinebiografia sobre seu pai, para o qual recebeu dinheiro do próprio Vorcaro.
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