Meio Ambiente

ONU diz que mundo precisa enfrentar 'realidade' de aquecimento global superior a 1,5°C

Published on Septiembre 2, 2026 at 15:32

Cientistas concordam que o aquecimento global aumenta o risco de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e inundações — ROMAIN PERROCHEAU / AFP
Cientistas concordam que o aquecimento global aumenta o risco de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e inundações — ROMAIN PERROCHEAU / AFP

A Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou, nesta quarta-feira (2), as medidas para conter o aquecimento global depois que o mundo superar o limite simbólico de +1,5°C, em um relatório inédito que recebeu críticas de várias associações.

No ano passado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia admitido, assim como vários cientistas, que ultrapassar a barreira de 1,5°C era inevitável, mas esta é a primeira vez que uma agência da ONU explora as formas de limitar os danos depois que o limite for superado.

Os cientistas concordam que um aquecimento superior a 1,5°C em comparação à era pré-industrial apresenta riscos graves. Quase 200 países assumiram o compromisso em 2015, em Paris, de tentar manter o aumento da temperatura global abaixo desse limite.

Porém, as previsões indicam que o planeta deve superar o limite em alguns anos. A atenção se concentra agora na melhor maneira de minimizar a intensidade e a duração de qualquer período "acima" dos 1,5°C.

Em um relatório muito aguardado e publicado nesta quarta-feira, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) afirma de maneira inequívoca que 1,5ºC será ultrapassado e que "o desafio deixou de ser evitar o excesso, e sim administrá-lo".

Como exemplo concreto, cientistas e autoridades da região do Pacífico alertam que, com este ritmo de aquecimento, as ilhas enfrentarão escassez de alimentos e a água potável será afetada pelo aumento do nível do mar.

Andrew Jones, diretor-geral adjunto da Comunidade do Pacífico, advertiu que o atum migrará para o leste, afastando-se dos Estados insulares onde um terço desse pescado é capturado em nível mundial.

Além disso, os pescadores que alimentam a população insular perderão 65% de suas capturas, disse.

As inundações devem aumentar e a água salgada invadirá as reservas de água potável, reduzindo a capacidade de viver nas ilhas, acrescentou.

As ilhas do Pacífico buscam ajuda financeira para se adaptar às mudanças climáticas, além de medidas mais rigorosas por parte dos países desenvolvidos para frear o uso de combustíveis fósseis.

"É uma volta à realidade. Precisamos viver com este mundo mais quente (...), mas ainda há muito a fazer para limitar o aquecimento", disse Richard Betts, coautor do relatório e professor da Universidade britânica de Exeter, durante uma entrevista coletiva.

O relatório "se concentra nas respostas que devem ser dadas, em vez de limitar-se a constatar que o fenômeno está acontecendo", explicou.

"É importante que os políticos percebam que as regras do jogo estão mudando" e que as abordagens atuais para combater a mudança climática já não são adequadas, ressaltou Debra Roberts, outra coautora do documento.

"Agora precisamos repensar nossa governança climática para enfrentar uma trajetória de ultrapassagem do limite. Nenhum dos nossos planos está preparado para isso", advertiu a climatologista sul-africana.

As conclusões do relatório alarmaram as organizações ativistas que se mobilizaram em torno da meta de 1,5°C desde que ela foi consagrada como a referência mais ambiciosa em matéria climática no Acordo de Paris.

"É um momento de partir o coração, mas o excesso não é motivo para desistir e abrir mão de 1,5 °C", afirmou Jasper Inventor, vice-diretor de programas do Greenpeace Internacional.

Bill Hare, climatologista e diretor do instituto de pesquisa Climate Analytics, criticou o relatório e afirmou que arrisca se tornar "um chamado à apatia", e não à ação.

O mundo já aqueceu aproximadamente 1,4°C desde o período de 1850-1900, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis.

Cientistas afirmam que ultrapassar 1,5°C poderia provocar eventos meteorológicos mais extremos e aproximar o planeta de pontos de não retorno, como o colapso das calotas polares e o desaparecimento dos recifes de coral tropicais.

"Não haverá um desfecho favorável se permanecermos acima de 1,5 °C", disse a diretora-executiva do Pnuma, Inger Andersen, antes de destacar que a adaptação à mudança climática seria necessária para salvar vidas e proteger a natureza.

"A luta para limitar o aquecimento a 1,5 grau é a luta pela humanidade", insistiu Guterres.

Para alcançar o objetivo, a captura de dióxido de carbono — processo que consiste em retirar o carbono do ar e armazená-lo — seria essencial, em conjunto com reduções profundas e rápidas das emissões, destaca o relatório.

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