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Represas hidrelétricas, a face obscura do desenvolvimento

AFP / FRANCOIS GUILLOT Membros de tribos indígenas da Amazônia se manifestam ao lado de ativistas da 'Extinction Rebellion' (XR) contra grandes hidrelétricas em Puteaux, noroeste de Paris

Emissões de gases que provocam o efeito estufa, alteração de microclimas e comunidades indígenas deslocadas. Emboras sejam consideradas fontes de energia renovável, as represas hidrelétricas podem ter efeitos devastadores, alertam ambientalistas.

Por ocasião do Congresso Mundial de Energia Hidrelétrica de 2019, que começa nesta terça-feira em Paris, vários ecologistas e especialistas de todo o mundo se reúnem na capital francesa para denunciar o impacto destas construções faraônicas sobre o aquecimento global.

Os partidários da energia hidrelétrica, que representa mais de dois terços de toda a energia renovável gerada no mundo, afirmam que esta é a melhore solução para fornecer energia ao planeta e lutar contra a mudança climática.

Além de garantir energia de baixo custo, este é considerado o sistema mais eficiente, pois utiliza a corrente dos rios, um recurso renovável, para gerar eletricidade, sem utilizar combustíveis fósseis, como o carvão ou gás.

Para os críticos, no entanto, as hidrelétricas provocam uma série de danos ao meio ambiente que poucas vezes são considerados nas etapas prévias a sua construção.

"As represas não são a solução para o aquecimento global", afirma Gert-Peter Bruch, presidente e fundador da ONG Planète Amazone, que defende uma mudança de enfoque para a questão controversa.

Quando uma represa é construída, grandes quantidades de material orgânico ficam submersas.

Estas sofrem posteriormente um processo de decomposição que termina com a formação de gases como dióxido de carbono, óxido nitroso e metano.

"Vários estudos científicos apontam que as represas contribuem na realidade com ao menos 4% dos gases do efeito estufa, um índice superior ao do setor da aviação em todo o planeta", destaca Bruch.

"Apesar disso, a indústria da construção de represas tenta dar à energia hidrelétrica uma aparência ecológica, para receber fundos verdes para o clima que foram criados pelos Estados para financiar a luta contra a mudança climática", denuncia.

- 'O que vamos comer?' -

Muitos estudos afirmam ainda que o desenvolvimento hidroenergético altera gravemente o ecossistema fluvial, destrói habitats e modifica o fluxo dos rios. Sem esquecer o impacto social, com comunidades locais forçadas a deslocamentos ou a mudar seu estilo de vida.

Somente na Bacia do Amazonas, que contém 20% da água doce líquida da Terra, há quase 140 represas hidráulicas operacionais ou em construção. Outras 428 são planejadas.

Líderes do povo indígena Munduruku, do estado do Pará, viajaram à capital francesa para denunciar a construção de represas no rio Tapajós, que integra o núcleo de suas terras tradicionais no coração da Amazônia.

"Viemos de muito longe para expressar nossa grande preocupação", afirma, visivelmente cansado, o cacique Arnaldo Kabá. Ele fala em linguagem Munduruku e outro integrante da etnia, mais jovem, traduz as declarações para o português.

Há vários anos os Munduruku protestam contra os planos do governo brasileiro de construir várias hidrelétricas no Tapajós e e seus principais afluentes, que inundariam parte de suas terras. A represa, segundo estimativas, inundaria uma área do tamanho da cidade de Nova York.

"O rio é como nossa mãe. Se construírem represas no rio, o que vamos poder comer? Para nós, os rios são como os supermercados para vocês, deles vêm nosso sustento", explica.

- 'Seguiremos lutando' -

"Querem destruir nossos rios, nossas florestas, nosso modo de vida. E tudo é decidido pelas nossas costas, não somos consultados", afirma, indignada, Alessandra Korap, outra líder da comunidade.

Esta etnia ganhou em 2016 uma batalha com a suspensão da construção da represa de São Luiz do Tapajós, um dos maiores projetos de expansão da geração de energia elétrica no Amazonas, depois que a FUNAI suspendeu a licença ambiental.

Os Munduruku temem, no entanto, a retomada do projeto com o governo do presidente Jair Bolsonaro, que citou a possibilidade de novos estudos para a construção de centrais hidrelétricas e prometeu não ceder "nem um centímetro a mais" para a demarcação de terras indígenas.

O tema é ainda mais sensível depois da longa disputa das autoridades com as tribos indígenas pelo projeto de Belo Monte, que será a terceira maior do mundo após a conclusão das obras no fim do ano, algo que afeta fortemente as comunidades indígenas.

"O novo presidente não quer demarcar nossas terras e sim acabar com elas, mas nós estamos aqui para dizer que seguiremos fazendo a autodemarcação, seguiremos resistindo, seguiremos lutando contra estes monstros que querem derrubar nossas florestas e matar nossos animais", completa Korap.

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