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Possibilidade de diálogo no Equador após uma semana de protestos

AFP / Martin BERNETTI Manifestante passa por barricada durante protestos em Quito em 9 de outubro de 2019

Os indígenas e o governo do Equador devem tentar aproximar suas posições nesta quinta-feira na crise que provocou violentos protestos, após o anúncio de um programa de ajustes estabelecido com o FMI e que provocou a disparada dos preços dos combustíveis.

Após uma semana de protestos, com centenas de feridos de detidos, que transformaram Quito em um cenário de casos e interromperam o transporte de petróleo pelo principal oleoduto do país, as expectativas se concentram em uma possível negociação com a mediação da Igreja Católica e da ONU.

"Estamos obtendo os melhores resultados do diálogo com os irmãos indígenas", afirmou o presidente Lenín Moreno na quarta-feira à noite. "Sem dúvida alguma isto será solucionado muito em breve", completou.

Moreno, que transferiu a sede do governo para Guayaquil em consequência das manifestações, visito Quito por algumas horas na quarta-feira para acompanhar as conversações.

Líderes da Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) expressam mais cautela a respeito dos contatos. Alguns, como Marlon Vargas, são contrários a dialogar com um "governo que cedeu às pressões do Fundo Monetário Internacional".

"A mobilização está em marcha, não terminou", afirmou outro líder indígena, Salvador Quishpe.

Os indígenas encarnam o descontentamento social pelas reformas econômicas adotadas por Moreno como parte de um programa de créditos do FMI destinado, segundo ele, a salvar a dolarizada economia equatoriana após o que ele chama de anos de "desperdício, endividamento e corrupção" no governo de seu antecessor e ex-aliado, Rafael Correa.

Entre os ajustes anunciados está o fim dos subsídios ao diesel e à gasolina, o que provocou o aumento dos preçose em até 123%.

Em sete dias, os protestos já deixaram um morto, 122 feridos e 766 detidos, segundo o último boletim das autoridades e informações da Cruz Vermelha.

Moreno não quer reverter sua política e oferece, em troca, liberar mais recursos para os povos indígenas afetados pelo aumento generalizado de preços que, em teoria, origina a alta de combustíveis.

Castigado pelo alto endividamento e pela falta de liquidez de sua economia dolarizada, o Equador acordou em março um programa de empréstimos com o FMI que chega a 4,2 bilhões de dólares.

Somente na semana passada Moreno anunciou o lado mais difícil do ajuste, que também prevê reformas tributária e trabalhista, afetando os funcionários públicos.

Os povos indígenas representam 25% da população equatoriana de 17,3 milhões.

O destacamento militar e a medida de exceção foram insuficientes para conter a crise, a mais grave desde a queda do então presidente Lucio Gutierrez em 2005.

Na última terça-feira houve violentos confrontos. Um grupo de povos indígenas conseguiu ocupar o Legislativo antes de serem despejados pela polícia.

O governo restringiu o trânsito noturno perto das instalações estratégicas como ministérios, pontes e antenas de comunicação.

Os protestos atingiram a indústria do petróleo. Vários poços na Amazônia foram ocupados por manifestantes, o que gerou uma queda de 31% na produção equatoriana, estimada em 531.000 barris por dia.

- Moreno vs. Correa -

Moreno culpa seu antecessor e ex-aliado Rafael Correa pela agitação social. Segundo o presidente, Correa tenta derrubá-lo em aliança com o governo venezuelano de Nicolás Maduro.

Na Bélgica, onde vive atualmente com sua esposa, Correa disse nesta quarta que será candidato se for necessário, depois de defender a antecipação das eleições, diante do que considera uma "grave comoção social".

Correa, que enfrenta uma ordem de prisão no Equador por um crime apontado pelo Ministério Público antes da eclosão dos protestos, negou que esteja incentivando o golpismo.

A verdade é que "temos um problema muito sério de desajuste econômico. O preço dos combustíveis é (um assunto) muito complexo, nenhum governo tocou nisso em 15 anos. Se o governo ceder, será forçado a se endividar muito mais", disse à AFP Simón Pachano, cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

Os Estados Unidos, a Secretaria-Geral da OEA e sete países latino-americanos liderados por Brasil, Colômbia e Argentina demonstraram apoio a Moreno.

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