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Atualidade

Paramilitares pró-Ortega agridem bispos em basílica da Nicarágua

AFP / MARVIN RECINOS Paramilitares assediam a basílica San Sebastián, em Diriamba, 9 de julho de 2018

Centenas de seguidores do presidente Daniel Ortega e paramilitares sitiaram e agrediram nesta segunda-feira (9) líderes católicos na cidade de Diriamba, no sudoeste da Nicarágua, em um recrudescimento da violência que já deixou 250 mortos em quase três meses de protestos contra o governo.

Os seguidores do governo invadiram com violência a Basílica de San Sebastián, em Diriamba, onde eclesiásticos tinham chegado para apoiar um grupo de manifestantes, que se entrincheiravam ali no domingo para se proteger do assédio às forças governistas.

"Não queremos mais bloqueios de vias", "assassinos", "mentirosos", "filhos da puta", repetiam os partidários do governo em agressões dirigidas à comitiva de religiosos, liderada pelo cardeal Leopoldo Brenes e pelo núncio Stanislaw Waldemar Sommertag, em sua chegada a Diriamba, constatou uma equipe da AFP.

O núncio, o cardeal e os bispos chegaram em caravana, procedentes de Manágua, para ajudar a libertar as pessoas retidas dentro da basílica, entre eles médicos voluntários que ficaram presos desde o domingo dentro da igreja após a violenta incursão.

Os religiosos foram cercados por partidários do governo, ao chegar ao templo, enquanto nos arredores havia dezenas de paramilitares.

"Não temos nenhuma arma, a arma aqui é a oração, eles estavam atacando do lado de fora", disse à AFP um membro do corpo médico que estava dentro da basílica, vestindo um jaleco e com o rosto coberto por uma camisa.

Quando os sacerdotes conseguiram abrir caminho em meio à multidão para entrar na igreja, foram agredidos fisicamente pelos paramilitares e pela multidão sandinista.

Entre as vítimas da agressão está o bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez, assim como jornalistas nacionais e estrangeiros, que cobriam os olhos.

Báez disse que "o que nosso povo está sofrendo" e que é muito "mais grave" do que aconteceu com ele e reiterou que o apelo da Igreja é por "um cessar da violência".

"Tinham uma multidão preparada para que nos agredissem", protestou o padre Edwin Román, que ficou ferido em um braço.

Após os distúrbios, Báez informou que as pessoas que estavam na Basílica foram "liberadas".

Um dos integrantes da comitiva informou por telefone à AFP que o grupo já retornou a Manágua e denunciou o incidente a grupos de defesa dos direitos humanos.

- "Não respeitam nem os bispos" -

"Sentimos esta ação dura, forte, brutal contra nossos sacerdotes. Jamais tínhamos visto na Nicarágua situações assim, verdadeiramente tristes", declarou Báez.

"É doloroso como não se respeitam os direitos humanos dos nicaraguenses por parte" dos grupos armados, "é uma falta de respeito para nossos bispos", disse à AFP Alvaro Leiva, secretário da Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH).

Os bispos fizeram a visita depois que pelo menos 14 pessoas morreram no domingo em um ataque violento de tropas paramilitares e antimotins nas cidades de Diriamba e Jinotepe, no departamento (estado) de Carazo (sudoeste).

Partidários de Ortega também invadiram uma igreja de Jinotepe, onde causaram danos e insultaram padres.

O chanceler nicaraguense, Denis Moncada, acusou a oposição de cometer "atos de terrorismo", e garantiu que o governo cumprirá seu dever de restaurar a paz.

"O Estado da Nicarágua (..) fara uso de seu dever constitucional, de sua obrigação institucional para manter a ordem, a segurança e a paz", declarou Moncada, que qualificou as manifestações opositoras de "atos de terrorismo que se cometem contra os nicaraguenses", como "sequestros, extorsões e assassinatos".

Os confrontos da polícia de choque e dos paramilitares com os manifestantes opositores se acirraram depois que Ortega descartou, no sábado, antecipar as eleições.

AFP / Maria-Cecilia REZENDE Daniel Ortega

A Igreja católica, que media o governo e a Aliança Cívica, propôs antecipar as eleições de 2021 para março de 2019 a fim de sair da turbulência que envolve o país desde que os protestos começaram, em 18 de abril.

Mas a Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN) advertiu que avalia "seriamente a continuidade do diálogo", que foi suspenso em três ocasiões desde que começou em meados de maio.

Em Washington, a OEA anunciou que vai discutir a situação da Nicarágua na quarta-feira, em uma sessão do Conselho Permanente, na qual a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) informará sobre os trabalhos do MESENI, mecanismo criado para dar continuidade às recomendações deste organismo para pôr um fim ao clima de violência desde que explodiram os protestos contra o governo, em abril.

O secretário da CIDH, Paulo Abrao, que participa da sessão, pediu à comunidade internacional neste domingo para atender à "crítica" situação no país centro-americano ante a violenta repressão dos manifestantes.

Homens armados entraram em confronto com a polícia no domingo em Jinotepe e Diriamba, derrubando barricadas que tinham sido erguidas pelos opositores, provocando uma forte troca de tiros, segundo testemunhas e grupos de defesa dos direitos humanos.

Entre as vítimas há dois policiais e dois paramilitares pró-governistas, segundo autoridades.

Pás mecânicas desmontaram as barricadas e abriram as vias para a circulação a mais de 350 furgões de carga centro-americanos que estavam parados há mais de um mês na estrada bloqueada de Jinotepe.

- Feridos e detidos -

As incursões em Diriamba, a 45 km de Manágua, e Jinotepe, a 40 km, deixam também dezenas de feridos e vinte detidos.

O detonador dos protestos foi uma reforma da Previdência Social, mas se propagaram após a repressão governamental e agora os opositores exigem a saída de Ortega, a quem acusam de instaurar, com sua esposa e vice-presidente, Rosario Murillo, uma ditadura marcada pela corrupção e pelo nepotismo.

Diante de milhares de seguidores em Manágua, Ortega, um ex-guerrilheiro de 72 anos que governa desde 2007 pelo terceiro mandato consecutivo, descartou no sábado antecipar as eleições.

Para aumentar a pressão, a Aliança Cívica convocou uma passeata para a próxima quinta-feira e uma greve geral em 13 de julho, a segunda convocada na crise, depois de uma em 14 de junho, que teve grande adesão de empresários e trabalhadores.

Mas o governo prepara uma contraofensiva com a celebração maciça - em data ainda não revelada - de uma efeméride prévia aos 39 anos da revolução, celebrada em 19 de julho.

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